Lendas e tradições

DANÇAS E CANTARES
Fazem parte da memória dos mais velhos, os serões bem passados com danças populares e modas da região gandaresa, recuperadas de finais do século XIX e princípios do XX. Estas caracterizam-se por serem, na maioria, danças de roda, em que os rapazes e raparigas dançam de mãos dadas. O acompanhamento de vozes em coro, é elemento comum em todas elas.
 
As letras das canções, sem autor conhecido, são igualmente populares e reportam-se à mesma época das danças. Há porém outras modas, as “danças mandadas”, com coreografias interessantíssimas, bailadas à voz do mandador, que também participa na roda. Estas são acompanhadas por vozes a solo de uma mulher e de um homem, alternadamente, que cantavam ao desafio e de improviso.
 
Importa ainda referir as “danças palacianas”, que se reportam à época clássica (séculos XVIII/XIX), que se efetuavam nos palácios e casas senhoriais, protagonizada pela fidalguia ociosa, que os serviçais copiaram, trazendo-as para o povo. São danças importadas da Europa Central, caracterizadas por não serem acompanhadas de vozes.
 
A mocidade aproveitava, preferencialmente, o final de certas tarefas agrícolas, realizadas em grupo, em que o senhorio da casa dava o jantar final “a adiafa”, para apresentar os seus dotes artísticos. Aos domingos, era nos terreiros das aldeias, que os jovens se juntavam, para se divertirem sob o olhar atento das mães.
 
Actualmente, estas danças exibem-se, exclusivamente, nos festivais folclóricos, pelo engenho dos Grupos de Folclore que, em regime de permuta, as partilham com outros grupos congéneres. 
  
TRAJES CARACTERÍSTICOS
De acordo com documentos antigos desta região, recuperaram-se os trajes de romaria e de passeio, das mulheres gandaresas com algumas posses, de finais do século XIX, em que o ouro era o ornamento dominante. São também dignos de menção os trajes dos noivos, não esquecendo o da senhora fina, que usava uniforme específico; o da viúva; os trajes próprios para os actos de culto; e os trajes de trabalho da mulher gandaresa, mais ou menos garridos, consoante a profissão que se executava.
 
JOGOS E BRINQUEDOS TRADICIONAIS
Muitos foram os jogos que se praticaram entre crianças, adultos, ou idosos, no entanto, hoje, são poucos aqueles que ainda se praticam, dada a conjectura da sociedade actual.
 
Assim, entre crianças e adolescentes, enquanto que os meninos praticavam os jogos do pião, da bandeira, da guerra no ar, do bicho ou do botão, da bijota ou do berlinde, da bela moira ou do carneiro, do prego ou da cavilha e das muletas; as meninas preferiam o jogo das tétalas ou das pedrinhas.
 
Eram comuns aos dois sexos, os jogos de rô rô, da macaca, do aeroplano, da barra ou do arranca nabo, da barca, do comboio, da cabra cega, do melrinho ou melroto, do sarrabicobico e o da tia dá-me lume.
 
Os adolescentes, mais espigadotes preferiam os jogos de  roda pancada ou lencinho, de roda do anel e de roda da cântara velha.
 
Entre adultos, mais precisamente entre os homens de “barba rija”, praticavam-se os jogos da bola de pau com 9 fitos, da malha de ferro e do chinquilho, da corda ou tracção e do burro com tabuleiro. À mesa, outras eram as preferências, assim, jogavam-se o rapa, o capado ou cerra mosca, os dados, o dominó, as damas e as cartas.
 
Durante as festas, por outro lado, entretinham-se com as fisgas, as rifas, a roleta ou tômbola, as corridas de sacos, as corridas de burros e o de pau ensebado, entre tantos outros.
 
No que se refere a brinquedos, antigamente as crianças produziam os seus próprios brinquedos, como o arco ou costelos, para apanhar pássaros, mas, actualmente, as crianças já não sentem essa necessidade.
 
LENDA DE CADIMA
Conforme relatam velhos pergaminhos, há muitos anos, existia um terreno arenoso coberto de pinheiros que foi povoado por um grupo de homens trabalhadores. Entre esses homens distinguia-se André, um rapaz alto, forte e de franco sorriso.(…) Um dia, algo veio alterar essa paz de espírito. Àquela terra acabava de chegar outro grupo de homens e mulheres, entre eles um velho e uma rapariga. E tudo mudou! (…) A mãe de André quis meter o rapaz a confesso. - Meu filho! (…) Já não sou todo o teu pensamento! - Mãe! Não pense que… - Eu sei, meu filho. Não és só tu que vives a pensar nessa mulher. É estranha!...Quem é ela? Donde veio? (…) E ele continuava, numa divagação: - Estranha e linda! (…) Já reparou nos olhos dela?... Parece que chamam por nós! (…) Tenho de falar com ela! Tenho de saber quem é! E já! (…) Chegou breve ao seu destino. De pé, encostada a um pinheiro, olhos perdidos no horizonte, corpo esbelto coberto por uma túnica, cabelos soltos ao vento, ela ali estava, como se o esperasse já! - Perdoa-me, se venho molestar-te! (…) Tu amedrontas-me! Quem és? Donde vieste? - Sou Cadima e nem sei donde venho! (…) Ando a vaguear com meu pai e com os seus companheiros, de terra em terra. - Queres dizer… que partirás daqui… qualquer dia? (…) - Se tu quiseres… ficarei para sempre na terra onde habitares. - E quão belo é tudo isto! Aqui, tenho experimentado sensações diferentes. Sinto-me outra. - Nada temas, André. Só te quero a ti. Diz uma palavra e ficarei contigo! - Minha doce Cadima! Eu julgo-me no céu! Vem comigo! Quero apresentar-te àquela que me deu o ser e tanto trabalhou para que eu me fizesse um homem, minha Cadima! - Agora não. Meu pai está a chegar. (…) Ouve isto que é necessário que saibas: para poder pertencer-te… terei de desligar-me completamente de meu pai. (…) Entretanto, na planície arenosa, o pai de Cadima aparecia. - Cadima! Vamos partir imediatamente! - Para onde, meu pai? (…) - Vamos trabalhar para outra terra. Cadima olhou em volta com ternura e os seus olhos beijaram em pensamento a bela paisagem. - Prefiro a morte a ser escrava de um senhor demoníaco! Não quero partir! Ficarei nesta terra abençoada! - Abençoada? Esta é terra onde impera a areia e falta a água para dessedentar os homens! – troçou o pai. - Esta terra será fértil e dará de beber aos que tiverem sede! Nesse momento, um enorme trovão se ouviu e a terra tremeu assustadoramente. - Olha, Cadima! O meu senhor está ali! Vem ao teu encontro. (…) A poucos passos, um homem de olhar estranho fitava-a, tentando subjugá-la. Mas Cadima, elevando os olhos ao céu, deixou que as lágrimas corressem livremente pelo seu rosto, e proferiu este pedido: - Se o mal que eu causei aos outros, se os crimes que fui obrigada a cometer puderem ser redimidos pela renúncia à minha felicidade na terra, que eu nunca mais veja André! Nesse mesmo momento, o Demónio correu para ela para a agarrar. A terra abriu-se como por encanto e Cadima desapareceu. E no lugar onde ela estivera, duas fontes brotaram da terra.(…) André caiu de joelhos sobre a terra, chorando e dizendo: - Nunca mais verei os teus olhos? Ouviu-se de novo a voz de Cadima: - Os meus olhos estarão sempre presentes nesta terra onde tu habitas. Eu to prometi! Ficarei aqui contigo. E os meus olhos aí estão transformados nessas fontes que darão de beber aos que tiverem sede! Os tempos passaram. Ainda nos nossos dias, nos campos que hoje pertencem ao lugar de Fervença, na freguesia de Cadima, lá está uma das fontes a que chamam “os olhos de Fervença” e que outrora eram chamados “os olhos de Cadima”.